Tempo de Ipê, Tempus Fugit

Os ipês estão florindo. Me dou conta.  Em choque pelo passar do ano.

Há quem conte o ano por trimestre fiscal, pelo retorno dos investimentos. Por bimestre, pelas provas, pelos dissídios.

Eu vou contado flores. Já passaram as quaresmeiras, agora vão começar os ipês. É o começo de fim no ano. Mais um sinal de que a vida taí fugindo.

A gente vai respondendo notificações, fazendo programa, cantando memes, contando as moedas.

O tempo vai escorrendo pelos dedos, areia fina. Ao menos meu ipê amarelo vai florir. Em casa, pela primeira vez.

 

Eu não disse oi pro Seu Antônio

Desde que a gente mudou pra casa nova da firma, o povo todo da rua cumprimentava o Seu Antônio. Senhor aposentado, morava sozinho na casa da frente. Seu Antônio é bom de papo, simpático, cheio de histórias pra contar. Eu morria de vontade de puxar assunto. Até um dia acho que tentei um cumprimento, que ele não ouviu. Sabia que o dia de ouvir as histórias do seu Antônio ia chegar.

Seu Antônio faleceu. Ninguém apareceu, só um carro, alguns minutos.

“A velha guarda tá indo embora” gritaram desconhecidos.

E daí, as histórias foram. Se tivesse a coragem do oi, eu estaria mais rico.

Tchau Seu Antônio.